Achados do acervo: Poema de Paulo César Pinheiro

A Casa do Choro fica num lindo imóvel tombado pelo INEPAC e cedido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e contou com o patrocínio do BNDES, da Petrobras e o incentivo da Lei Rouanet para suas obras de restauro e reforma. A construção histórica erguida no início do século XX tem características arquitetônicas semelhantes às dos templos mouros e, por isso, foi conhecida por muito tempo como “Mourisquinho”.

De dentro, as paredes de tijolo exposto contam a rica história do prédio construído por volta de 1902. As caricaturas de Pixinguinha nas paredes vão contando outra e tudo vai sendo embalado com muito choro! A Casa do Choro pulsa com música e respira história, muito também por conta de seu acervo. São mais de 15 mil partituras de compositores dedicados ao gênero desde o século XIX, mais de 2 mil discos de 78 rotações e LPs, além de extenso material bibliográfico e iconográfico.

Com mais de 150 anos de história, o choro tem sua trajetória registrada por diferentes meios: jornais, livros, depoimentos, gravações, pinturas e retratos espelham a riqueza deste que é um dos maiores gêneros de música popular urbana ainda em atividade no mundo. O Instituto Casa do Choro possui em sua sede um verdadeiro centro de referência especializado, que abriga e disponibiliza boa parte desta memória para pesquisadores, músicos e interessados no choro. As diferentes coleções do ICC espelham diferentes momentos do choro e são resultado de trabalho de músicos e pesquisadores que dedicam suas vidas à construção desta memória.

Essa parte da história da nossa música popular permanecia em total obscuridade e inacessível ao grande público, mas tudo isso veio à luz na Casa do Choro. Boa parte do acervo é de músicas inéditas e elas são apenas uma parcela de um espaço recheado de preciosidades. Partituras, discos, fitas, fotografias, instrumentos e itens de todo tipo estão reunidos na construção histórica da Rua da Carioca, número 38. Explorar os achados deste acervo é uma aventura à parte. 

A poema "Roda de Choro", de Paulo César Pinheiro é o primeiro achado a ser apresentado aqui. Publicado em janeiro de 1996 na primeira edição da extinta "Revista Roda de Choro", o poema ainda é novo aos olhos do grande público. Uma obra digna de um grande poeta que merece ser redescoberta:

 

Roda de choro

Paulo César Pinheiro

 

I

O choro é como

Um vestido de roda

Que não segue a moda,

Que a moda não dura.

O seu tecido

É de fino novelo,

Parece um modelo

Da alta-costura.

 

O cavaquinho

Persponta por dentro

Alinhava no centro

O bordado da flauta,

E o sete cordas,

Exímio na linha,

Remata a bainha

Da barra da pauta.

 

Os violões

Vão tecendo a fazenda

Com tramas de renda

Feito um trancelim,

Enquanto o molde

Do choro é cortado

Pelo dedilhado

De um bandolim.

 

 

II

O alto-relevo

Suave do pano

Quem faz é o piano

Com a ponta do fio,

E o acordeon

Recorta a silhueta

Quando a clarineta

Desenha o feitio.

 

Trombone chega

Trazendo os enfeites,

Botões e colchetes

E um pala nova,

Depois o sax

Ajeita o bordado

E ajusta do lado

Pra última prova.

 

É o pandeiro

Que dá o caimento,

Faz o acabamento

Com fecha de ouro.

E não tem moda

Que faça um vestido

De fino tecido

Mais lindo que o choro.